sábado, 4 de fevereiro de 2012
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Mais um golpe na Educação Pública: Governador ataca a autonomia da UEPB
A população
paraibana, e especificamente a comunidade acadêmica, foi surpreendida nesta
sexta-feira pela decisão do governador de atacar frontalmente a autonomia da UEPB.
Em apenas um dia Ricardo Coutinho “acaba” com o duodécimo da universidade e
determina que todas as movimentações financeiras
seja feita via conta do Estado. Como consequência imediata
deste fato o orçamento da universidade que deveria ser de aproximadamente RS 28
milhões mensais, será de apenas 18 milhões. Caso se concretize esta iniciativa do
Governo, a consequência mais
imediata será a redução dos investimentos em todos os setores, da pós-graduação
passando pelos recursos humanos até a assistência estudantil.
Infelizmente a situação estrangulou. Mas o governador Ricardo
Coutinho já vinha dando sinais de que sua relação com a educação, e
especificamente com a UEPB, não estava entre suas prioridades. Desde o
início do seu governo manteve um debate com os professores do ensino básico com
base em sofismas e no início deste ano fechou quase 200 escolas estaduais.
No que se refere a UEPB desde
2011 o governador não vem
respeitando a lei de autonomia. Durante o ano passado os repasses ficaram bem
abaixo dos 5,77% que determina a lei de autonomia. Como consequência a data base (janeiro) para reajuste
salarial dos servidores não foi respeitada. Após 5 meses de espera os
professores da UEPB reunidos
em assembléia geral, e contra a vontade da direção sindical, decidiram por uma greve por
tempo indeterminado.
Após 4 dias de greve, como a
assembléia rejeitou uma proposta verbal feita pelo governador, este enviou uma
proposta por escrito onde reconhecia parte da dívida deixada pelo governo
anterior e se comprometia a reestabelecer os
repasses integrais do duodécimo a partir de agosto de 2011. Com essa proposta
na mão, a direção sindical da ADUEPB chamou
uma assembléia geral e juntamente com a direção da universidade decidiram
aceitar a proposta do governo. Nesta assembléia eu e outros colegas avaliávamos
que a proposta do governo era insuficiente e não garantia a autonomia da UEPB e que, por isso, deveríamos estender
um pouco mais a greve no sentido de levar o governador a nos dar garantia reais
de respeito a autonomia. Perdemos a assembléia e foi aprovada a proposta de
acabar com a greve defendida pela direção da Universidade e do Sindicato (Aduepb).
No entanto, mesmo após a greve, nem o
governo do Estado nem a Reitoria conseguiram cumprir integralmente o acordo para o reajuste salarial,
apresentado por eles próprios, para pôr fim a greve. Assim, chegamos ao final
de 2011 sem a conclusão do reajuste salarial. No mais, o compromisso assumido pelo governador para reestabelecer o duodécimo em agosto de 2011 nunca
foi cumprido e a UEPB continuou
sendo desrespeitada na sua autonomia, tudo isso aconteceu sem que a direção da
universidade ou a direção da Aduepb, no desempenho dos seus respectivos papéis, esboçassem uma reação à
altura.
Por fim, chegamos ao final de Janeiro
de 2012. Mais uma data base dos servidores foi desrespeitada pelo governo do
Estado e pela reitoria da universidade. No entanto não é só isso. Agora o
governo não ataca apenas os servidores, é a universidade enquanto instituição
que sofre um duro golpe na sua autonomia. É a população paraibana que assiste a
uma tentativa de desmantelamento da UEPB por
parte do atual governador. São os jovens que esperam contar com vagas na
universidade pública para cursarem o ensino superior que começam a ser usurpado desse direito.
Não se admirem isso é só o começo. Com
esse golpe de girassol poderá vir a desvalorização profissional,
o sucateamento dos equipamentos e, finalmente, a privatização,
como Coutinho fez com o hospital de traumas em João Pessoa.
A comunidade acadêmica precisa reagir!
sábado, 7 de janeiro de 2012
Desenvolvimento e socialismo
Falar em socialismo deixou de ser um despautério. A crise internacional desmoralizou os fanáticos do mercado. Mas qualquer mudança social tem de ser pensada em meio a um projeto de desenvolvimento viável e no bojo das disputas políticas reais da sociedade brasileira.
Gilberto Maringoni
(Publicado na revista Margem Esquerda no. 17, Boitempo Editorial, 2011)
A possibilidade concreta de se viabilizar uma transição ao socialismo está hoje fora da agenda da sociedade brasileira. A hegemonia burguesa consolidou-se, após um longo período de defensiva das idéias socialistas. Parte da esquerda formada a partir dos anos 1970-80 adaptou-se e ajudou a consolidar tal hegemonia, conferindo-lhe inédita legitimidade.
Essa parcela significativa da esquerda – que inclui lideranças políticas, sindicais e populares – dá nova qualidade ao pacto de classes estabelecido no Brasil, após a eleição de Luís Inácio Lula da Silva à presidência, em 2002. Estabeleceu-se uma aliança sólida entre tais setores e o grande capital financeiro e industrial e o agronegócio, em torno de um projeto de desenvolvimento. O detalhamento de tal pacto pode ser lido aqui.
Embora se percebam vários matizes no interior desse grande acordo, a maior parte de seus agentes se unifica em torno de algumas linhas-mestras: 1. Absoluta prioridade aos setores rentistas, para os quais se destina cerca de 47% do orçamento federal, sob a rubrica de pagamento dos serviços da dívida pública, baseados nos juros reais mais altos do mundo; 2. Manutenção de uma taxa de câmbio valorizada, que favorece o capital externo e penaliza os setores industriais; 3. Livre circulação de capitais; 4. Expansão do mercado interno, através da elevação do salário mínimo e de programas de transferência de renda; 5. Diversificação dos parceiros comerciais do Brasil no plano externo e 6. Manutenção de toda ordem jurídico-institucional criada para a implantação do modelo neoliberal.
Neoliberalismo puro e duro
Não se trata mais do neoliberalismo puro e duro dos anos 1990, quando aconteceram as privatizações em massa e o grosso das reformas constitucionais que garantiram a nova ordem. Tudo se deu ao custo de aumento do desemprego e de três crises consecutivas na economia brasileira. Esse viés mais radical do mercadismo perdeu legitimidade, mas permanece vivo nas páginas e telas da grande mídia e nos partidos de direita. Atualmente, mantidas suas características básicas, o modelo se arraigou na sociedade brasileira, gerando moderadas taxas de crescimento econômico, além de uma melhoria no padrão de vida dos assalariados e da adoção de políticas sociais focadas.
Num plano muito minoritário em termos de expressão política, existe um projeto à esquerda – que contempla também várias nuances. Na verdade, não se conforma nitidamente como alternativa, mas como ideário disperso em alguns setores sociais. Ele poderia, genericamente, ser classificado como democrático-popular. Essa vertente envolve frações dos trabalhadores, da pequena e média burguesia e mesmo partes minoritárias da burguesia. Algumas dessas formações encontram-se abrigadas no pacto de classes majoritário e, vez por outra, exibem descontentamentos com os rumos da orientação geral.
Como tratar a questão da transição do capitalismo para o socialismo nessas balizas concretas? Como colocar o tema no plano da tática – ou seja, da política – e não no terreno de uma estratégia desvinculada da formação social e econômica e social atual do país?
Este pequeno texto não responde a tais questões. Elas seguem em aberto nos dias que correm. Busca-se aqui tão somente apontar a necessidade de articulação entre um projeto de desenvolvimento democrático e popular nos marcos do capitalismo realmente existente e a luta pelo socialismo.
Problema tático
Duas décadas depois da derrocada dos regimes do socialismo real, que gerou uma aguda crise política e ideológica na esquerda mundial, e quase uma década após a chegada ao poder de um partido de origem popular no Brasil, o que significa exatamente advogar uma ruptura socialista?
Um objetivo como esse não pode ser uma construção apenas doutrinária, desvinculada das lutas e condições da realidade política. Ruptura – ou revolução - e socialismo não são valores ou categorias morais. São, antes de tudo, objetivos políticos, inseridos na real disputa de forças na sociedade. Isso implica estabelecer metas de curto, médio e longo prazo, examinar quem são os sujeitos políticos dessa empreitada, os aliados e os inimigos e traçar um programa mínimo e um programa máximo de ação. Em outras palavras, são partes da construção de uma tática e de uma estratégia política. Não se trata assim de tarefa acadêmica. Uma articulação desse tipo deve captar uma necessidade expressiva na sociedade, tendo como núcleo fundamental os trabalhadores, os setores pobres da cidade e do campo e parcelas da pequena burguesia. Outras frações de classe podem eventualmente se juntar nessa empreitada, dependendo das condições concretas da disputa política.
Revolução em xeque
Ao longo das últimas duas décadas, revolução passou a ser um conceito tido como obsoleto. A queda do muro de Berlim, em 1989, a derrota eleitoral dos sandinistas na Nicarágua, em 1990, o desmanche da União Soviética, em 1991, e a supremacia do modelo neoliberal em quase todo o mundo, acuaram as forças que pregavam mudanças na ordem social. A própria idéia de revolução, no sentido de uma transformação radical da realidade, foi colocada em xeque. Ela voltou à baila primeiro pelas mãos do presidente venezuelano, Hugo Chávez, que desde sua chegada ao poder, em 1998, alardeia comandar uma revolução em seu país. Mais recentemente, as mobilizações populares nos países árabes chegaram a ser chamadas de revolução. Independente da exatidão ou não na utilização do termo, o certo é que ele saiu do limbo a que foi relegado há duas décadas.
O que é uma revolução? As definições sobre uma mudança de tal natureza foram sintetizadas por Caio Prado Júnior (1907-1990):
Revolução, em seu sentido real e profundo, significa o processo histórico assinalado por reformas e modificações econômicas, sociais e políticas sucessivas que, concentradas em período histórico relativamente curto, vão dar em transformações estruturais da sociedade, e em especial das relações econômicas e do equilíbrio recíproco das diferentes classes e categorias sociais. [1]
Fernando Claudín (1915-1990), histórico dirigente comunista espanhol, destaca um traço fundamental nas revoluções:
Toda revolução social, tanto socialista como burguesa, compreende como momento necessário a revolução política, a passagem do poder a uma nova classe. [2]
O debate sobre processos revolucionários pode levar à discussão de outro conceito banido da agenda política: o projeto socialista. Se, como dizia Marx, o socialismo representará o desenvolvimento máximo das forças produtivas, com a disseminação do bem-estar e da qualidade de vida, há que se superar o desenvolvimento capitalista, mudando sua qualidade, guardando algumas de suas características, mas negando outras, essenciais, para a construção de uma nova síntese que pode ser genericamente chamada de desenvolvimento socialista.
A esquerda e o desenvolvimentismo
Embora o desenvolvimento econômico sob o capitalismo seja um projeto essencialmente burguês, é preciso levar em conta algumas de suas características. No caso brasileiro recente, o aumento da massa salarial, a expansão dos níveis de emprego e a disseminação do crédito acabam por atrair largos setores dos trabalhadores para o pacto dominante. A melhoria imediata dos padrões de vida, como acontece atualmente em vários países da América Latina, após duas décadas de estagnação, consolidou a idéia que o desenvolvimento é igualmente bom para todos.
Celso Furtado (1920-2004), o mais radical e talentoso reformista burguês do Brasil, diferenciava desenvolvimento de crescimento. Para ele, “O crescimento econômico, tal qual o conhecemos, vem se fundando na preservação dos privilégios das elites que satisfazem seu afã de modernização; já o desenvolvimento se caracteriza pelo seu projeto social subjacente. Dispor de recursos para investir está longe de ser condição suficiente para preparar um melhor futuro para a massa da população. Mas quando o projeto social prioriza a efetiva melhoria das condições de vida dessa população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento” [3].
Ou seja, trata-se de um processo de transformação social. Essa transformação será tão mais profunda quanto mais a esquerda socialista souber empreender uma luta política para fazer aliados e formular programas na luta por um desenvolvimento distributivista, democrático e ecologicamente sustentável, que aponte para o socialismo. Não se coloca aqui em dúvida que a transformação almejada será socialista. Discute-se a tática a ser empreendida. Ela depende dos rumos a serem traçados, mas sobretudo da luta e das condições política concretas.
Para definir os atores sociais de uma empreitada dessa envergadura, é preciso apontar o que se quer e onde se deseja chegar. A estratégia de transformação conformará a frente de interesses e de interessados, deixando claro quais os beneficiados e quais os prejudicados com o processo.
O tal do reboquismo
Ao mesmo tempo, a esquerda não pode permanecer como caudatária do desenvolvimentismo burguês. Isso aconteceu de forma clara depois da divulgação da Declaração de Março de 1958, do Partido Comunista Brasileiro (PCB). A íntegra do texto pode ser lida aqui.
Vale a pena estudar aquele documento. Ele é contraditório, mas extremamente interessante. O texto tem o mérito de produzir um giro na atuação partidária, que havia adotado concepções ultraesquerdistas, estreitas e sectárias após a publicação dos manifestos de janeiro de 1948, de agosto de 1950 e das resoluções do IV Congresso, de 1954. Todos representam reações à colocação do partido na ilegalidade, em 1947. O resultado foi o isolamento do PCB das forças nacionalistas e progressistas.
Após o texto de 1958, a agremiação adotou uma linha de participação no movimento nacionalista, assumiu a luta democrática como bandeira e possibilitou a ela tocar as questões concretas do dia a dia. Houve uma busca pela concretização de alianças, sem exigências irreais, dogmáticas e apriorísticas de hegemonia, como acontecia no período anterior.
No entanto, a Declaração de Março tem como questão principal um grave erro estratégico, fruto de uma análise precária da composição de classes da sociedade brasileira. O texto atribui à “burguesia nacional” um papel progressista. A dada altura, a Declaração diz o seguinte:
O proletariado e a burguesia se aliam em torno do objetivo comum de lutar por um desenvolvimento independente e progressista contra o imperialismo norte-americano.
O resultado concreto foi que o Partido acabou por se colocar a reboque da “burguesia nacional” e de sua concepção política e econômica central, o nacional-desenvolvimentismo. A maior parte dessa burguesia aliou-se ao imperialismo no golpe de 1964, isolou e combateu os comunistas e a esquerda em geral.
O período nacional-desenvolvimentista não foi uniforme e suas características intrínsecas conheceram várias nuances. Obteve-se, através dessas orientações, um modelo de modernização acelerado, que não tocava nas estruturas arcaicas de concentração da renda e da propriedade.
Provocou um dos maiores deslocamentos humanos da história contemporânea, através das migrações internas do campo para a cidade, com vantagens e problemas daí advindos.
O desenvolvimentismo dos anos 1950 entrou em crise, no final daquela década, por conta da maciça e crescente necessidade de importação de bens de produção, o que passou a causar desequilíbrios estruturais no balanço de pagamentos. Some-se a isso, uma contradição inerente ao desenvolvimento, a formação de uma numerosa e disciplinada classe operária, que passou a reivindicar uma repartição maior das riquezas por ela produzida, colocando-se na prática contra um dos pilares do modelo, a superexploração do trabalho.
As raízes do golpe de 1964 estavam principalmente em impedir que as classes sociais emergentes na cena política a partir de 1930 – especialmente o operariado, os trabalhadores rurais e setores das camadas médias – exigissem democratização da propriedade, da renda e do poder político. Para seguir atraindo o capital externo, o país teria de domesticar as reivindicações trabalhistas e criar um ambiente politicamente estável.
O golpe de 1964 é a maior expressão histórica do equívoco de se submeter o movimento popular a uma diretriz própria da burguesia. O exame criterioso desse exemplo deve nortear as ações táticas e estratégicas da esquerda brasileira.
As vertentes da retomada
Após duas décadas de defensiva das camadas populares, a sociedade brasileira viveu novamente, a partir dos anos 1980, um intenso período de disputas, no bojo das lutas políticas pelo fim da ditadura. O debate tinha como pano de fundo a ofensiva do movimento popular.
A percepção de que o modelo anterior entrara em crise, gerando um acentuado desgaste político do regime suscitou um grande debate nacional. Ele combinava reivindicações democráticas com definições de rumos na economia. Havia três vertentes e várias nuances no tabuleiro.
A primeira delas, liderada pelo grande capital, clamava por uma política de desestatização, identificando o propalado gigantismo do Estado como matriz da dinâmica recessiva e inflacionária que o país viveu a partir de 1982. A saída seria uma redução do papel do Estado, para liberar energias produtivas da iniciativa privada.
A segunda era vocalizada por setores da burguesia – cuja tradução política se dava através da maioria do PMDB – e por uma parte do movimento social, especialmente pelos setores nos quais o PCB tinha forte presença. Exigiam uma redefinição do papel do Estado, que deveria retomar suas características de planejador e impulsionador do desenvolvimento.
E a terceira vertente – formada pelas lideranças do chamado “novo sindicalismo”, por egressos da luta armada dos anos 1960-70 e por facções progressistas da Igreja Católica – advogava, de maneira rudimentar, uma ruptura com o capitalismo, sem mediações com a burguesia brasileira. Eram os setores que convergiriam para a formação do Partido dos Trabalhadores. A agremiação nasceu e cresceu criticando a política de alianças de classe do PCB.
Ao longo dos anos, a segunda e a terceira vertente tiveram grande convergência. Ou seja, o PT paulatinamente passou a adotar a aliança de classes que renegara no passado. E ao conquistar o poder de Estado, aconteceu o que o economista Paul Singer notou em entrevista recente: A “aliança com sistema financeiro e latifúndio deu ao PT tranqüilidade para governar”.
Concretizou-se assim o pacto de desenvolvimento mencionado no início. Uma conformação política dessa natureza não é feita para se lutar pelo socialismo e muito menos para mudar estruturalmente a sociedade. É neste cenário que o grande capital, o agronegócio exportador e as velhas oligarquias seguem dominando, em aliança com parcelas expressivas do movimento popular.
Colocar na agenda
É também neste cenário que a esquerda socialista precisa alcançar legitimidade para colocar na agenda política a alternativa de uma transformação social radical. Dois erros devem ser evitados:
A) Ficar a reboque do desenvolvimentismo. Os setores que o compõem são aliados em uma luta comum até determinado ponto: romper com alguns constrangimentos impostos pelo capital financeiro, o que não é pouca coisa;
B) O segundo equívoco é o oposto. Seria incorrer num doutrinarismo estéril, sem disputar a base social do pacto dominante, que envolve setores com várias contradições entre si. Seria ao mesmo tempo incorreto eleger o desenvolvimentismo como obstáculo principal da luta pelo socialismo
No plano concreto, um programa tático poderia envolver, entre outros, os seguintes pontos:
A) Uma política monetária e uma política fiscal expansiva, que se traduza na quebra da dominação neoliberal. Concretamente isso se traduz em juros baixos, fim do superávit primário e na adoção de controle de capitais;
B) No âmbito do trabalho, redução de jornada, aumento de direitos e do trabalho formal;
C) Maior controle do sistema financeiro e reestatização das empresas privatizadas nos últimos 20 anos;
D) Aumento do investimento estatal nos serviços públicos
E) Auditoria da dívida pública;
F). Democratização das comunicações;
G) Reforma agrária;
H). Direitos iguais para homens, mulheres, negros e minorias;
I). Uma política de desenvolvimento ecologicamente sustentável.
A partir desses pontos – que contam com a concordância de amplas parcelas do campo popular, algumas hegemonizadas pelo pacto dominante – é que se pode avançar no plano concreto para a construção de uma estratégia socialista com força social.
A luta pelo socialismo é um projeto coletivo e não-linear. Depende das injunções históricas, do ambiente interno ao país, das condições da economia mundial e de decisões na esfera política. Ela necessita da constituição de uma frente popular e democrática, a partir das organizações existentes na sociedade. Pressupõe a disputa das bases sociais do pacto dominante.
A luta pelo socialismo não interessa ao grande capital e nem àqueles que têm no terreno financeiro e na especulação a fonte principal de seus ganhos. Um projeto desse tipo, que passa por uma ruptura revolucionária, pressupõe a supremacia da política, com sociedade organizada, instituições democráticas e Estado e forte. E pela solidificação dos partidos de esquerda.
É algo a favor das maiorias e contra as minorias privilegiadas. Um projeto desse tipo só é possível em um embate antiimperial de envergadura e de integração regional soberana.
(*) Agradeço a sugestões feitas em versões anteriores deste texto por Antonio Augusto, Duarte Pereira, Paulo Kliass e Valter Pomar. Naturalmente, eles não têm responsabilidade alguma sobre as linhas que seguem.
NOTAS
1. Prado Jr., Caio, A revolução brasileira, Editora Brasiliense, São Paulo, 1987, pág. 11
2. Claudín, Fernando. A crise do movimento comunista: vol. 1. São Paulo, Global, 1985. v.1. págs. 51-52
3. Furtado, Celso, Os desafios da nova geração, in Revista de Economia Política, Vol 24, nº 4 (96), Out-Dez – 2004, pág. 484
Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo)
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Para Hobsbawm, protagonismo da classe média marca revoltas de 2011
Andrew Whitehead
Do Serviço Mundial da BBC
Atualizado em 23
de dezembro, 2011 - 15:40 (Brasília) 17:40 GMT
A classe
média foi a grande protagonista e força motriz das revoltas populares e
ocupações que marcaram o ano de 2011. Esta é a opinião de Eric Hobsbawm, um dos
mais importantes historiadores em atividade.
Em entrevista
à BBC, o historiador marxista nascido no Egito, mas radicado na Grã-Bretanha,
afirma ainda que a classe operária e a esquerda tradicional - da qual ele ainda
é um dos principais expoentes - estiveram à margem das grandes mobilizações
populares que ocorreram ao longo deste ano.
''As mais
eficazes mobilizações populares são aquelas que começam a partir da nova classe
média modernizada e, particularmente, a partir de um enorme corpo estudantil.
Elas são mais eficazes em países em que, demograficamente, jovens homens e
mulheres constituem uma parcela da população maior do que a que constituem na
Europa'', diz, em referência especial à Primavera Árabe, um movimento que
despertou seu fascínio.
''Foi uma
alegria imensa descobrir que, mais uma vez, é possível que pessoas possam ir às
ruas e protestar, derrubar governos'', afirma Hobsbawm, cujo título do mais
recente livro, Como Mudar o
Mundo, reflete sua contínua paixão pela política e pelos ideais de
transformação social que defendeu ao longo de toda a vida e que segue abraçando
aos 94 anos de idade.
As ausências
da esquerda tradicional e da classe operária nesses movimentos, segundo ele, se
devem a fatores históricos inevitáveis.
''A esquerda
tradicional foi moldada para uma sociedade que não existe mais ou que está
saindo do mercado. Ela acreditava fortemente no trabalho operário em massa como
o sendo o veículo do futuro. Mas nós fomos desindustrializados, portanto, isso
não é mais possível'', diz Hobsbawm.
Hobsbawm
comenta que as diversas ocupações realizadas em diferentes cidades do mundo ao
longo de 2011 não são movimentos de massa no sentido clássico.
''As
ocupações na maior parte dos casos não foram protestos de massa, não foram os
99% (como os líderes dos movimentos de ocupação se autodenominam), mas foram os
famosos 'exércitos postiços', formados por estudantes e integrantes da
contracultura. Por vezes, eles encontraram ecos na opinião pública. Em se
tratando das ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas foi claramente esse
o caso.''
À sombra das revoluções
Hobsbawm
passou sua vida à sombra - ou ao brilho - das revoluções.
Ele nasceu
apenas meses após a revolução de 1917 e foi comunista por quase toda a sua vida
adulta, bem como um autor e pensador influente e inovador.
Ele tem sido
um historiador de revoluções e, por vezes, um entusiasta de mudanças
revolucionárias.
O historiador
enxerga semelhanças entre 2011 e 1848, o chamado ''ano das revoluções'', na
Europa, quando ocorreram uma série de insurreições na França, Alemanha, Itália
e Áustria e quando foi publicado um livro crucial na formação de Hobsbawm, O Manifesto Comunista, de Marx
e Engels.
Hobsbawm
afirma que as insurreições que sacudiram o mundo árabe e que promoveram a
derrubada dos regimes da Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen, ''me lembram 1848, uma
outra revolução que foi tida como sendo auto-impulsionada, que começou em um
país (a França) e depois se espalhou pelo continente em um curto espaço de
tempo''.
Historiador diz que revoluções no mundo árabe tomaram rumo
inesperado
Para aqueles
que um dia saudaram a insurreição egípcia, mas que se preocupam com os rumos
tomados pela revolução no país, Hobsbawm oferece algumas palavras de consolo.
''Dois anos
depois de 1848, pareceu que alguma coisa havia falhado. No longo prazo, não
falhou. Foi feito um número considerável de avanços progressistas. Por isso,
foi um fracasso momentâneo, mas sucesso parcial de longo prazo - mas não mais
em forma de revolução''.
Mas, com a
possível exceção da Tunísia, o historiador não vê perspectivas de que os países
árabes adotem democracias liberais ao estilo das europeias.
''Estamos em
meio a uma revolução, mas não se trata da mesma revolução. O que as une é um
sentimento comum de descontentamento e a existência de forças comuns mobilizáveis
- uma classe média modernizadora, particularmente, uma classe média jovem e
estudantil e, é claro, a tecnologia, que hoje em dia torna muito mais fácil
organizar protestos.''
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Bastidores da troca no “JN”
Originalmente publicado por por Rodrigo Vianna, em seu blog O Escrevinhador
A Globo confirma a saída de Fátima Bernardes do “JN”. No lugar
dela deve entrar Patrícia Poeta – atual apresentadora do “Fantástico”.
Fiz hoje pela manhã – no twitter e no facebook – algumas
observações sobre a troca; observações que agora procurarei consolidar nesse
post. Vejo que há leitores absolutamente céticos: “ah, essa troca não quer
dizer nada”. Até um colunista de TV do UOL, aparentemente mal infomado, disse o
mesmo. Discordo.
Primeiro ponto: a Patrícia Poeta é mulher de Amauri Soares. Nem
todo mundo sabe, mas Amauri foi diretor da Globo/São Paulo nos anos 90. Em
parceria com Evandro Carlos de Andrade (então diretor geral de jornalismo),
comandou a tentativa de renovação do jornalismo global. Acompanhei isso de
perto, trabalhei sob comando de Amauri. A Globo precisava se livrar do estigma
(merecido) de manipulação – que vinha da ditadura, da tentativa de derrubar
Brizola em 82, da cobertura lamentável das Diretas-Já em 84 (comício em São
Paulo foi noticiado no “JN” como “festa pelo aniversário da cidade”), da
manipulação do debate Collor-Lula em 89.
Amauri fez um trabalho muito bom. Havia liberdade pra trabalhar.
Sou testemunha disso. Com a morte de Evandro, um rapaz que viera do jornal “O
Globo”, chamado Ali Kamel, ganhou poder na TV. Em pouco tempo, derrubou Amauri
da praça São Paulo.
Patrícia Poeta no “JN” significa que Kamel está (um pouco)
mais fraco. E que Amauri recupera espaço. Se Amauri voltar a mandar pra valer
na Globo, Kamel talvez consiga um bom emprego no escritório da Globo na
Sibéria, ou pode escrever sobre racismo, instalado em Veneza ao lado do amigo
(dele) Diogo Mainardi.
Conheço detalhes de uma conversa entre Amauri e Kamel, ocorrida em
2002, e que revelo agora em primeira mão. Amauri ligou a Kamel (chefe no Rio),
pra reclamar que matérias de denúncias contra o governo, produzidas em São
Paulo, não entravam no “JN”. Kamel respondeu: “a Globo está fragilizada
economicamente, Amauri; não é hora de comprar briga com ninguém”. Amauri
respondeu: “mas eu tenho um cartaz, com uma frase do Evandro aqui na minha
sala, que diz – Não temos amigos pra proteger, nem inimigos para
perseguir”. Sabem qual foi a
resposta de Kamel? “Amaury, o Evandro está morto”.
Era a senha. Algumas semanas depois, Amauri foi derrubado.
Kamel foi o ideólogo da “retomada consevadora” na Globo
durante os anos Lula. Amauri foi “exilado” num cargo em Nova Yorque. Patrícia
Poeta partiu com ele. Os dois aproveitaram a fase de “baixa” pra fazer “do
limão uma limonada”. Sobre isso, o Marco Aurélio escreveu, no “Doladodelá”.
Alguns anos depois, Amauri voltou ao Brasil para coordenar
projetos especiais; Patrícia Poeta foi encaixada no “Fantástico”. Só que Amauri
e Kamel não se falavam. Tenho informação segura de que, ainda hoje, quando se
cruzam nos corredores do Jardim Botânico, os dois se ignoram. Quando são
obrigados a sentar na mesma mesa, em almoços da direção, não dirigem a palavra
um ao outro. Amauri sabe como Kamel tramou para derrubá-lo.
Pois bem. Já há alguns meses, logo depois da eleição de 2010, recebemos a informação de que Ali Kamel
estava perdendo poder. Claro, manteria o cargo e o status
de diretor, até porque prestou serviços à família Marinho – que pode ser
acusada de muita coisa, mas não de ingratidão.
Otavio Florisbal, diretor geral da Globo, deu uma entrevista ao
UOL no primeiro semestre de 2011 dizendo que a Globo não falava direito para a
classe C (o Brasil do lulismo). Por isso, trocou apresentadores tidos como
“elitistas” (Renato Machado saiu pra dar lugar ao ótimo Chico Pinheiro – aliás,
também amigo de Amauri). A Globo do Kamel não serve mais.
Lembremos que, desde
o começo do governo Lula, a Globo de Kamel implicava com o “Bolsa-Família”.
Kamel é um ideólogo conservador. Por isso, nós o chamávamos de “Ratzinger” na
Globo. É contra quotas nas universidades, acha que racismo não existe no
Brasil. Botou a Globo na oposição raivosa, promoveu a manipulação de 2006 na
reeleição de Lula (por não concordar com isso, eu e mais três ou quatro colegas
fomos expurgados da Globo em 2006/2007). E promoveu a inesquecível cobertura da
“bolinha de papel” em 2010 – botando o perito Molina no “JN”. Nas
reuniões internas do “comitê” global, ao lado de Merval Pereira, tentava
convencer os irmãos Marinho dos “perigos” do lulismo.
Lula sabe o que Kamel aprontou. Tanto que no debate do
segundo turno, em 2006, nem cumprimentou Kamel quando o viu no estúdio da
Globo. Isso me contou uma amiga que estava lá.
Os irmãos Marinho parecem ter percebido que Kamel os
enganou. O lulismo, em vez de perigo, mudou o Brasil pra melhor. Mais
que isso: a Globo agora precisa de Dilma para enfrentar as teles, que chegam
com muito dinheiro e apetite para disputar o mercado de comunicação. Kamel já
não serve para os novos tempos. Assim como os “pitbulls” Diogo Mainardi e Mario
Sabino não servem para a “Veja”.
Dilma buscou os donos da mídia, passada a eleição, e propôs a
“normalização” de relações. O governo seguiu apanhando, na área “ética” – é
verdade. O que não atrapalha a imagem de Dilma. Há quem veja na tal “faxina” um
jogo combinado entre a presidenta e os donos da mídia. Será? Dilma tiraria as
“denúncias” de letra (o custo ficaria para Lula e os aliados). Do outro lado,
os “pitbulls” perderiam terreno na mídia. É a tal “normalização”. Considero um
erro estratégico de Dilma. Mas quem sou eu pra achar alguma coisa. O fato é que
a estratégia hoje é essa!
Patricia Poeta no “JN” parece indicar que a “normalização” passa
por Ali Kamel longe do dia-a-dia na Globo (ele ainda tenta manobrar aqui e ali,
mas já sem a mesma desenvoltura). Isso pode ser bom para o Brasil.
Não é coincidência que a Globo tenha permitido, há poucos dias,
aquela entrevista do Boni admitindo manipulação do debate de 89. A
entrevista (feita pelo excelente jornalista Geneton de Moraes Neto) foi ao ar
na “Globo News”. Alguém acha que iria ao ar sem conhecimento da família
Marinho? Isso não acontece na Globo!
Durante os anos de poder total de Kamel, a Globo tentou
“reescrever” o passado – em vez de reconhecer os erros. Kamel chegou a escrever
artigo hilário, tantando negar que a Globo tenha manipulado a cobertura das
Diretas. Virou piada. Até o repórter que fez a “reportagem” em 84 contou pros
colegas na redação (eu estava lá, e ouvi) – “o Ali é louco de tentar negar
isso; todo mundo viu no ar”.
Ali Kamel nega o racismo, nega a manipulação, nega a realidade.
Freud explica.
Agora, Boni reconhece que a Globo manipulou em 89. Isso faz parte
do movimento de “normalização”. O enfraquecimento de Kamel também faz.
Tudo isso está nos bastidores da troca de apresentadores do “JN”.
Mas claro que há mais. Há a estratégia televisiva, pura e simples. Fátima
Bernardes deve comandar um programa matutino na Globo. As manhãs são hoje o
principal calcanhar de aquiles da emissora carioca. A Record ganha ou empata
todos os dias. Com o “Fala Brasil”, e com o “Hoje em Dia”. Ana Maria Braga não
dá mais conta da briga – apesar de ainda trazer muita grana e patrocinadores.
Fátima deve ter um novo programa nas manhãs. Ana Maria será
mantida. Até porque na Globo as mudanças são sempre lentas – como no Comitê
Central do PC da China. A Globo é um transatlântico que se manobra lentamente.
Se a Fátima emplacar, pode virar uma nova Ana Maria. O programa
dela deve contar com outras estrelas globais (Pedro Bial, quem sabe?).
A mudança de apresentadores tem esse duplo sentido:
enfraquecimento de Kamel (que continuará a ter seu camarote no transatlântico
global, mas talvez já não frequente tanto a cabine de comando); e estratégia
pra recuperar audiência nas manhãs.
A conferir.
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